O tradicional modelo de ensino jurídico - essencialmente comprometido com a transmissão unilateral de conteúdos - tem gerado distorções na vida prática de egressos das universidades, geralmente convictos de que os seus diplomas universitários constituem a chave mestra para uma atuação profissional de sucesso.

Bem distante desse imaginário, a realidade mostra-se extremamente desafiadora em razão de dificuldades. Dificuldade de ingressar no mercado de trabalho, pois desprovido das ferramentas básicas necessárias ao exercício de dado ofício. Dificuldade de se manter e desenvolver-se profissionalmente, por falta de treinamento e orientação capazes de reparar falhas pretéritas na formação jurídica superior.

Jill Switer, em seu artigo intitulado Millennial Lawyers Need Mentors, But The Legal Profession is Slacking, destaca a especial dificuldade enfrentada no campo da advocacia privada, em que se exige uma gama enorme de competências profissionais. Essas competências, em geral, são pouco exploradas nas faculdades de direito - avaliação de casos, contato com clientes, execução de procedimentos básicos etc. Isso indica, então, a importância da figura do mentor, que será o grande responsável pela adaptação do jovem profissional à vida prática dos juristas.

Ressalta a autora que essa mentoria não provém de um sentimento essencialmente altruísta daquele que se incumbe no papel de mentor, mas da falta de outra opção capaz de salvaguardar os interesses de seus clientes, sem comprometer o seu tempo e o seu dinheiro. Ou seja, a orientação e o treinamento surgem como pontos altos do processo de preparação do jovem profissional às reais demandas do dia a dia da advocacia.

Ocorre que, em contramão a essa necessidade de acompanhamento, os jovens advogados de hoje (nascidos entre os anos 1980 e 1994), de modo geral, segundo a autora, são relutantes em fazer perguntas e em pedir ajuda. Carregam consigo a sensação de que nada tem a aprender com o outro e que uma conversa com um profissional mais experiente teria como principal resultado uma grande perda de tempo. E é nesse contexto que as falhas na formação jurídica se mostram ainda mais desastrosas.

Além disso, embora os mentores figurem como protagonistas da reparação das lacunas na formação jurídica de um jovem profissional, sua função é mitigada por uma barreira levantada por uma característica própria da nova geração, justo o grupo que mais necessita da mentoria para adaptar-se à realidade prático-profissional. Nessa história, um ponto é incontroverso: todos os sujeitos envolvidos sofrem as consequências de uma educação superior lacunosa e descomprometida com a vida pós-faculdade daqueles que, por significativos anos, vincularam o seu tempo a um projeto repleto de ressalvas.

Tal cenário sinaliza uma urgência: a necessidade de maiores reflexões em torno do modelo de ensino superior mais adequado à realidade profissional.

Em que medida a transmissão verticalizada de conteúdos é a melhor forma de preparar um futuro profissional? Quais as habilidades que se espera de um profissional de dada área do conhecimento e de que maneira a educação superior mostra-se capaz de considerá-las? O que seria a formação por competências? Como modernizar os antiquados currículos das faculdades de direito do país? Seria razoável delegar responsabilidades próprias das faculdades a mentores externos à sua estrutura? O diploma deve mesmo ser visto como um mero documento, sem relação com as competências profissionais do seu detentor?

Esses questionamentos devem ser enfrentados, a fim de possibilitar a reconstrução de um modelo de educação superior mais compatível com as necessidades da realidade prático-profissional. De toda sorte, enquanto não se tem solução definitiva, vale seguir as recomendações traçadas por Jill Switzer: (a) aos mentores: proporcionar um ambiente para o desenvolvimento; não se impor; (b) aos mentorados: estar mais disposto a ouvir; não adotar uma postura eminentemente defensiva; não se prender aos erros cometidos; fazer perguntas sem receios.

É certo que ninguém nasce pronto. Vivemos, e aprendemos continuamente. As faculdades de direitos não são as únicas responsáveis pelos obstáculos existentes fora de suas divisas, mas vale considerar que determinadas práticas precisam ser repensadas e, se substituídas por outras, são capazes de atribuir ainda mais valor a um diploma universitário.

Vamos, algum dia, conseguir superar esse abismo entre a educação jurídica superior e a atuação prático-profissional? Há soluções factíveis? Torçamos para que as respostas sejam positivas.